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23 de setembro de 2020 às 12:09 / Notícias

“Os movimentos sociais e a educação popular nunca foram tão essenciais como neste momento”, diz Boaventura de Sousa Santos

Sociólogo português participou do seminário de lançamento do estudo “O impacto da Covid-19 nos movimentos sociais populares”

As plataformas virtuais, atualmente usadas com muita frequência em todo o mundo em função da pandemia do coronavírus, foram palco, na tarde da terça-feira (22), do seminário online “O impacto da Covid-19 na ação dos movimentos sociais populares”,  promovido pelo Centro de Educação e Assessoramento Popular (CEAP). O evento teve como objetivo apresentar as considerações iniciais do estudo realizado pela entidade ao longo dos últimos quatros meses com a finalidade de identificar se houveram e quais são as mudanças ocorridas nas ações político-organizativas e político-educativas de movimentos sociais e organizações populares do Brasil, em decorrência da pandemia da Covid-19. Para tanto, foram entrevistadas lideranças de 23 movimentos e organizações que atuam em diferentes frentes das lutas populares no país.

Para iniciar o seminário, Paulo Carbonari, associado do CEAP e um dos responsáveis pela redação do estudo, apresentou alguns dados levantados pelos pesquisadores, lembrando que as considerações não são conclusivas, uma vez que dizem respeito a um acontecimento que ainda está em curso e, portanto, sendo vivenciado dia-a-dia pelas organizações, em um processo de travessia.  De acordo com Carbonari, por meio dos dados coletados foi possível constatar que não há uma unanimidade de percepção das lideranças acerca do impacto da pandemia nas ações dos movimentos sociais populares. Contudo, as falas dos entrevistados apontam para uma dicotomia entre o “real” e o “virtual”, evidenciando que as organizações mantêm vivo o desejo por ocupar as “ruas”, ao passo que apresentam certa insatisfação em relação às possibilidades de mobilização e ação política proporcionadas pela “rede”.

Paulo Carbonari apresentou o estudo

Carbonari destacou, ainda, outros aspectos importantes levantados pela pesquisa. De acordo com ele, uma das questões bastante enfatizadas pelas lideranças e que se coloca como um desafio diz respeito à relação da pandemia com o “agravamento” da desigualdade, do racismo, do machismo e do patriarcado, da LGBTIfobia e de outras práticas de desumanização e de exclusão. “Ainda que os espaços organizativos já tenham criado novos ambientes para a promoção da igualdade, é notória a ainda persistente reprodução de práticas opressivas”, destacou, acrescentando que quando as desigualdades são reproduzidas nos espaços organizativos dos movimentos sociais, exigem uma atenção ainda mais redobrada, não somente para que as contradições dos discursos e práticas sejam superadas, mas para que as pessoas sejam respeitadas e promovidas em todos os sentidos.  

Depois da apresentação dos pontos iniciais do estudo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, convidado especial da tarde, teceu comentários sobre o material gerado pela pesquisa. De acordo com o professor, a pandemia da Covid-19 traz desafios para os movimentos sociais e para a educação popular uma vez que quem se dedica à essas áreas, trabalha a partir da construção de relações de confiança que dificilmente podem ser estabelecidas exclusivamente através da internet. “Uma solidariedade forte se constrói entre pessoas que estão presentes em três dimensões, não apenas por meio das telas. É através das metodologias participativas que se dão presencialmente que temos a possibilidade de ‘conhecer com e não conhecer sobre’”, enfatizou. Nesse sentido, Boaventura destacou a importância dos educadores vêm se dedicando a pensar alternativas de interação que combinam as modalidades presenciais e virtuais, uma vez que o acesso à internet e aos meios eletrônicos está longe de ser democrático e universal e do modo como está posto se configura como uma nova dimensão de desigualdade social.

Em sua fala, Boaventura destacou que os movimentos sociais e organizações populares estão transformando a crise em oportunidade

Apesar dos desafios impostos pela pandemia, que impede o acesso às ruas e aos espaços públicos e limita as formas de atuação política, o sociólogo acredita que os movimentos sociais e as organizações populares estão conseguindo transformar a crise em oportunidade, uma vez que se torna cada dia mais evidente a importância dessas organizações no enfrentamento ao coronavírus e no desenvolvimento de sociedades menos desiguais, baseadas no princípio da coletividade. “Os movimentos sociais e a educação popular nunca foram tão essenciais como neste momento, pois são essas organizações que estão trazendo para o debate a necessidade da construção de outro modelo de sociedade. Com a pandemia, voltou a ser legítimo falar em um horizonte pós-capitalista. Isso para mim é uma das grandes oportunidades do momento que vivemos e quem está pautando isso são os movimentos sociais populares”, enfatizou Boaventura, que é entusiasta do Fórum Social Mundial e um dos criadores da  Universidade Popular dos Movimentos Sociais (UPMS).

O sociólogo destaca, ainda, que considera o momento atual como um acontecimento histórico, que promoverá mudanças significativas no modo de pensar e agir da sociedade. “Os séculos não começam no dia 01 de janeiro de determinado ano, mas sim quando há um acontecimento, uma crise que se inscreve como uma novidade e dá a marca para aquele período. Eu penso que essa pandemia é a grande novidade deste século. Estamos diante de um acontecimento que vai ter enorme influência no modo como nós agimos, em como vamos pensar o futuro e, de alguma forma, revolucioná-lo”, salientou.

Moema Viezzer, Escritora, socióloga, educadora popular socioambiental e feminista foi uma das pesquisadoras responsáveis pelas entrevistas.

Depois da fala de Boaventura, os pesquisadores Moema Viezzer, Elza Falkembach, Eymard Vasconcelos, Eduardo de Oliveira, Oscar Jara, que contribuíram com a realização das entrevistas que dão base para o estudo, fizeram uso da palavra e apresentaram outros pontos importantes levantados ao longo da realização da pesquisa. 

Durante o evento também foi realizado um momento simbólico de abertura do centenário de Paulo Freire. Os 100 anos de nascimento do patrono da educação brasileira serão celebrados em setembro de 2021. Até lá, entidades ligadas ao Centro de Educação Popular da América Latina e Caribe (CEAAL) promoverão diferentes atividades comemorativas, de formação e estudo, como uma forma de fazer contraponto à ofensiva ideológica contra as ideias de Paulo Freire e defender o seu legado.

O seminário foi transmitido no canal do CEAP no YouTube e está disponível no link https://bit.ly/3hV1Gqs.

Materiais gerados pelo estudo estão disponíveis para acesso 

O estudo “O impacto da Covid-19 nos movimentos sociais populares” gerou um texto em formato de e-book e uma série de audiovisuais intitulada “Travessia”, dirigida pelo cineasta Guilherme Castro, que conta com oito curtas metragem e seis vídeos que analisam o contexto da Covid-19 a partir da ótica dos dirigentes dos movimentos sociais e organizações populares entrevistadas. O material está disponível para download e visualização em hotsite publicado pelo CEAP, no endereço https://estudocovid.ceap-rs.org.br/ .

Ao longo dos próximos meses, a entidade também promoverá debates acerca do tema junto ao Fórum Nacional de Defesa do Direito Humano à Saúde e demais movimentos e organizações sociais populares interessadas no assunto.

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